Força estranha

Para Gal…essa voz absurdamente magistral

Outra vez essa força estranha na tua voz
Tão simples e singela jardinando
Meu canteiro de flores deixando só uma
Sequela de silêncios ali cantando à capela

Essa força estranha calcorreou a aurora dos teus céus
Ilustres bebendo todo o luar engalfinhado num cardume
De vozes ecoando algures entre um cântico sagrado
Amarinhando em nós assim sem mais queixumes

Essa força estranha ciciando a suavidade das formas inebriantes
Quase iridescentes pintalgando esta voz tamanha e
Contagiante…um lamento de coros vociferando radiantes
Até que a noite nos acolha pra sempre mais viciantes

Essa força estranha, um lamento ludibriando até a madrugada
Que assim alucinante embalava o pestanejar do dia
Acontecendo no expansivo feltro do tempo musical
Tão arrepiante, persuasivo com sabor equatorial

Outra vez…sim, outras tantas, quantas eu quiser bebendo
Dessa força estranha qual melodia que nos entranha mais imprevista
Usurpando toda a solidão que se aninha a nós num frenesim
Quase litúrgico, tão paliativo…mais vinculativo

FC

 

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Silêncio à la gardère

Remota e longínqua refugia-se a solidão entre
A folhagem deste exílio que se esconde tão proscrito
Alimentando e cutucando os ardores poéticos desta mísera
E afinada ilusão serpenteando todo o silêncio em reclusão

O silêncio à la gardère recrudesce integro e despojado
Sempre mais atrevido colorindo a lingerie da noite que agora
Se despe brandindo tanta emoção suspirando quase depravada

Os ventos em surdina trazem outros perfumes acocorados ao
Tépido semblante da memória onde rastreio tantos desejos enamorados
Aplaudindo a academia das saudades onde te guardo sempre tão obcecado

Desbaratei a formusura de cada paixão convertida num pranto exaltado
Premeditei até este silêncio que permanece pelejando mais recatado
À la gardère até que a noite flameje pra nós assim robusta, vistosa…resignada

Frederico de Castro

 

À soleira do sol

Vinca-se o horizonte entre as curvas da manhã
Nascendo solarenta roubando da solidão o vincado
Gomo de luz sorrindo, sorrindo calorento e delicado

Os perfumes da madrugada travestidos de ilusão
Afrouxam o passo a cada hora em reclusão deixando todo
Eco arquejando à mercê de tantos milésimos segundos de emoção

No portal do tempo deixo minhas melancolias pernoitarem
No berço dos amores replicados meditando sobre aquela brasa
Ateada e agrilhoada ao sedutor e matrimonial verso autenticado

Em breves redemoinhos a esperança difunde-se numa holografia tão
Terna tão sublime, aparando os ais e lamentos encorpados e absorvidos
Numa saudade que agora desfruto inteiramente crente, indubitavelmente comovido

FC

Memórias do amor

Para o tempo recreei uma hora eterna algemada
À invisível turba de silêncios contritos…intimidados
Memória de tantos amores alinhados num acorde bem bradado

Remanesce a solidão distraidamente requintada embebedando
A noite preterida onde toda a luz desabrida e lesta se pôe em
Fuga tão integralmente espoliando e esculpindo cada lamento
Que fica assim deportado e sem guarida

À boleia do oceânico prazer navego mar a dentro indagando cada
Onda que por ti caprichosa flutua e escorrega ferida e borbulhosa
Oh, ternas maresias que de tão virtuosas suscitam ardentes marés fogosas

Pincelei os sílios à madrugada que ternamente se dependurava
Entre as colinas do silêncio mais descuidado e astucioso, beijando
Cada paisagem sempre amistosa, tão excitada qual vivificante luz amarando
Depurada numa  feliz manhã  substancialmente arrebatadora e confortada

FC

Flash de amor

Tateando o dia ancoro o sorriso que desliza
Encorporado ao teu colo deixando cada aresta do
Silêncio árduo, copioso, escorrendo suavemente majestoso

E assim dissemino e encharco cada desejo que incubo num eco mais
Auspicioso farejando a latitude de todos os beijos e carícias acuradas
Abandonadas num obsceno momento de solidão tão maliciosa e esfarrapada

Num flash magistral a madrugada despontou em socorro da luz
Indefectível e harmoniosa, regando e perfumando os poros a cada ilusão
Espartilhada em gomos de sofreguidão tão graciosa…bem salvaguardada

Avivo a esperança que de rompante perfilho incorporando todas
As sílabas do amor vestindo-se destas homologadas palavras deliciosas
Até que,em privado te corteje faminta, cúmplice…quase infecciosa

FC

Exsudado silêncio

O silêncio num perpetuante divagar amealha
Todos os inimagináveis lamentos generosos
Absurdamente apaixonantes intensamente prazerosos

Umedecida ficou a noite agachada entre as maresias embriagantes
Bailando na maré primorosa e esculpida qual prefácio de tantos versos
Ondeando pelas tuas margens sumptuosas, atrevidas…quase asfixiantes

Numa atlântica noite serena, ignífico aquela onda que em nós se espraia
Religiosamente provisória, serenamente estimulante e promissória
Enamorada sereia que em meus mares se deleita tão peremptória

Tomara eu acordar no seio deste silêncio horrivelmente ditatório
E musicar pra sempre aquele reportório de desejos fecundando
O gineceu dos amores que gestam bem exsudados e conciliatórios

Muitos mares por cruzar

Busquei a noite que se pintou da mais
Fiel negrura algemada entre todas as solidões
Espreitando pela fissura do tempo que geme afoito
Na infléxil ilusão desta vida onde impreterivelmente me acoito

Muitos mares deste mundo ainda me restam navegar
Multiplicando quantas tantas horas perplexas se abeirando
Das margens da minha solidão bem urdida e tão complexa

Do passado inventariei todos os beijos que subsistem no
Palato do tempo alimentando o design das muitas, tantas ilusões
Penduradas no cavalete da memória quase unilateral, tão servil e medieval

Na cachoeira dos dias navego num embebedante e nostálgico
Momento de prazer viral sempre mais nevrálgico, gizando cada
Hora que fenece numa histeria, analógica,  ilusionista e insaciável

FC