Entre aquelas brisas…

Espevitam-se as noites numa dança magistral
Deliciam-se nas luminescências férteis que um bocejo
Subtil esboça, recheando a minguante solidão, quase
Atarantada…incessantemente insinuante e acalentada

Plenos e embriagantes fremem os desejos afrontados
Chamuscam as carícias que deslizam ígneas, tenazes
Entre os lençóis de tantos sabores sedentos e audazes

Penetram na escuridão todas as sombras de um
Lamento incontido retorcendo-se entre movediços
Silêncios rebeldes, vorazes…inteiriços

Arquivo finalmente a solidão na biblioteca das palavras
Elegantes possuindo cada verso uma partilha
De rimas encurraladas àquela brisa que sussurra
Gentil, castiça e bem camuflada

FC

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Ateada cumplicidade

Sustenho uma panóplia de silêncios escrutinadores
Ladeio a solidão com um prazer quase delicado
Deixando nas prateleiras do tempo a ternura retida
Num abraço ateado a cada sorriso sempre replicado

Nem mais consigo somente decifrar os sonhos
Escorregadios, fugindo pela janela da saudade
Qual recluso e viril momento de cumplicidade onde se
Causticam estas memórias trajadas de plena maturidade

Atadas ao passado abandonaram-se lembranças mais
Contraditórias…tão sequiosas como a luz que rasga a
Aurora de uma madrugada polvilhada de ecos e lamentos gentis
Requentando depois a solidão iniqua unânime e tão hostil

Audaz o dia renasce temperado por provocantes perfumes
Movem-se as horas alucinadas quase cruéis deixando na lonjura
Da eternidade um silêncio imenso, imune à volatilidade do
Tempo pelejando suicida ao sabor de um agiota segundo tão versátil

FC

No calabouço do tempo

Faço um check-up à solidão e absorvo da manhã
Mil perfumes imperceptíveis elegantemente debruando
A janela onde pousam seduzidas palavras tão
Cúmplices…tão compatíveis

Gargalhadas graciosas temperam a noite fechada
No calabouço da escuridão
Mordiscam a luz ofegante perambulando pelas
Oitavas desta solidão indizível e divagante

No bailado felino do tempo farfalham tantas horas
Imensas e embriagantes
Coligam-se na máscula e afectuosa sedução
Dos desejos tatuados num lambuzado prazer roçagante

Cavalgam pelos ventos uivantes diminutos silêncios
Quase submissos…tão fustigantes,
Dando azo a uma permuta de beijos soletrados à
Esquadria de um bravio desejo mais retumbante

FC

Estratosférico infinito além

Do silêncio que agora pernoita em mim
Viajam retratos de lembranças e saudades tamanhas
Desvendam fantasias pintando os quadris deste
Tempo expectante e gentil

Soltas ao vento as palavras prenhes e suculentas
Ejaculam proverbiais lamentos quase agourentos
Pousam de mansinho na meridional solidão onde alicio
O amor com beijos ornamentados de desejos tão prementes

Degrau a degrau estratificam-se os céus ornamentais
Deixam um vazio estratosférico mergulhar além infinito
Onde me perco paparicando cada gomo de luz inóspito e proscrito

Com lágrimas desenho o cariz da tua tristeza até que fiquem
Cabisbaixos os ecos de um sonho marginal onde ordenho
Minhas solidões, navegando fecundas, quânticas…essenciais

FC

Longos dias tem este silêncio

 

Longos dias tem estes silêncios mais indescritíveis
Matam a chama da alma madrugando no pavio das solidões mais
Imedíveis…minguando como a lua nos seus quartos secretos e iludibriáveis

Morrem por fim os adjectivos mais funestos deste silêncio
Quase imperial e irreconciliável tão voláteis quanto o voo da libélula
Desaparecendo pelas sombras do dia sussurrando inflexível e inolvidável

Abstêm-se todos os surdos gritos sentidos no sigilo da madrugada
Tão irrevogável para assombro da luz que ateio à chama mortiça
Ainda que perplexa, tão ígnea, fatal, tangível…até o silêncio enfeitiça

Esvaem-se todos os silêncios no fado do tempo que me é tão imprescindível
Pecúlio da fé que ainda alimento em cada reavivante verso apetecível
Exposto à fúria de uma hora que morre lenta, lentamente irresistível

FC

O dia de todos os silêncios

Profundo como este silêncio é o vazio
Que resvala pelo abismo do tempo fugidio
Onde mergulham palavras e gestos arredios

Foi mais um dia de todos os silêncios estúrdios
Quantas vezes intolerantes e consumíveis
Tantas outras inconsolavelmente devastadores e imperceptíveis

Na esquina das desolações desequilibram-se
Muitas solidões, amenizam-se razões perdidas no tapume
Das horas expostas a tantos dissimulados lamentos inaudíveis

Morre a silhueta de uma sombra milimetricamente irredutível
Calam-se os silêncios num imenso eco ecoando de improviso
Embebedando a noite que chega vestida de negro e tédios irremovíveis

FC

Precário silêncio

Descubro o véu do silêncio banhando
O dia reverberando arguto…quase satírico
Enquanto brame faminta a solidão impotente
Perante esta audaz ilusão categórica e omnipresente

Com fogosidade o tempo esmaga cada hora
Inerte, urgente, avassaladora
Desmonta o trapézio do silêncio onde se
Equilibram solidões tão devastadoras

Enamorada a noite bamboleia-se sensual e
Dengosa neste prazer devasso e boémio tão carente
Deixando à tangente uma paixão diluir-se na dialéctica dos
Nossos beijos nunca censurados antes e sempre mais comburentes

Ostento agora a luz que a madrugada roubou ao precário
Sonho onde nos expusemos inadvertidamente
Pátria do amor feito inquisição desta fé ruindo abruptamente
Até que fine uma hora senil mergulhada num lamento…assim indubitavelmente

FC