Why…(Porque sinto!)

Doem-me estes versos quase castrados porque agora
Vou prescindir desta lucidez padecendo rebelada
Cadastrando o silêncio que escorre numa noite tão apavorada

Porque sinto minha oração revelada pela fé ainda
Que solitária capaz de beber toda a esperança que mobilizo
Ao ritmo dos meus versos trajados de tanta perseverança

Porque anoiteço cada noite condimentando a luz aquartelada
Nos céus mais intensos e virtuais até raiar de novo a lauta confiança
Emparedada num calendário de excursões e amores tão banais

Um tímido silêncio dobrou a ponte onde fazíamos nossas
Incursões destemidas, rescindindo a solidão que se banhava
Entre as margens da indiferença sempre escultural e tão temida

Porque debaixo de chuva escapo entre os pingos da solidão confinada
Às gentis luminescências da madrugada que se algema ao subalterno
Desejo embebedando a gramática deste destino tão interino onde agora hiberno

E porque desalmo minha imaginação tão pedinte esgravatando a
Sonâmbula existência onde mastigo cada lamento que se espreguiça
Na poltrona do meu exílio tantas tantas, ilusões improvisa, baloiça e viça

FC

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Crying…

Tenho nos meus olhos uma lágrima chorando
Derramada em prantos quando deixou naufragar
Aquele lamento calado angustiante que quero até deserdar

Abri o alçapão das minhas lágrimas e de lá
Saíram todos os vestígios da solidão que sem alarde
Deserta agora vitima de tamanha e intimidadora reclusão

Pudesse eu e parava muitos dos lamentos de um mundo insano
Para alivio daqueles ais diagnosticados e incubados por tanto
Sofrimentos,pranto e dor

Quis eu contrariar os medos aturdidos, ocultos peregrinando num
Chorinho mais conciso, alimentando cada sorriso assimétrico, fugidio
Algemado à esfinge da noite histérica morrendo empanturrada e excêntrica

Na palidez da madrugada curei-te aquela lágrima ferida que penso
E esquadrinho ávido, buscando toda nómada existência quase genocida
Emboscada na arquitectura de uma inquieta súplica sem mais guarida

E chorando pingam meus olhos de poesia conivente tão ciente desta solidão
Incontida percorrendo as artérias de uma lágrima faminta engalfinhada a
Este extinto e síncrono silêncio, adornando uma esperança agora extinta

FC

Agudas solidões

Como um presságio do tempo o tempo
Desfolhou-se por inteiro…derradeiramente
Contagiando aquele sossego quase possesso
Fitando o queixume fugindo na algazarra
De todos os silêncios…assim sorrateiramente

E longa se tornou a espera acomodando aquela hora
Inalcançável, traçada a régua e esquadro, morfologicamente
Impassível…tão acabrunhada, sorvendo com sofreguidão
Um beijo corroendo cada desejo que se queda insano, em toda
Aguda solidão

Palmo a palmo recreio a esperança unindo a arquitectura dos
Nossos sonhos vagando em torrenciais momentos tão atrevidos
Elastecendo a solidão que desabrocha confidencial e precavida
Até que a manhã no seu baloiço de ilusões escancare todo eco
Renitente…fatalmente consistente e absolvido

Gemo calado abraçado a cada assustadiça palavra que
Preenche o vácuo da minha memória tão esquecediça deixando
Sem retorno aquele polígamo perfume expectante que inflamo
Nesta saudade, tão aromática, tão imensa que hoje e sempre celebramos

FC

 

Caminhos solitários

Vesti cada palavra com ritmos excepcionais
Colori todos os vocábulos com um lirismo purificado
Na mais plena rima toda excêntrica…toda ficcional

Embandeirei em arco este verso embebedado até à
Última gota semântica que dessedenta uma estrofe soluçando
Completamente astuta, desesperadamente acutilante e afoita

Vou por caminhos solitários espevitando a memória confortada
Banhada em tantas lembranças reclusas na epiderme deste
Silêncio tão inconsequente…quase sempre delinquente e atordoado

O tempo perdeu sua meninice entrou numa adolescência
Tão eloquente engravidando aquela meiga escuridão onde
Inquieta e mais pungida, repousa esta minha tão cruente reclusão

Airosos e tão pirómanos deixei todos os meus heterónimos ateando
Fogo a cada verso que desembainho da minha enciclopédia anónima
Onde se alforria aquele desejo convalescendo romântico e bem revigorado

FC

Estações eternas

Primavera
Soergue-se a vida de tonalidades e cores reverberantes
Fecunda-se o amor tão temperante…tão revigorante
Doce sabor colorido que renasce cada dia mais galante

E das longas migrações chegam e passarinham entre nós aqueles
Trinados silvestres alegrando a Terra com uma colheita de sons tão lacustres
Desaguando entre paixões sempre temperamentais…sempre mais ilustres

Verão
E levanta-se ígnea e magistral a luz matutina veraneando entre
Sóis escarlates, abrindo as janelas ao dia vadiando na fornalha rítmica
Enérgica, tão térmica, irradiando um calórico beijo ali carburando

Encrosta-se cada desejo mais bronzeado alimentando a derme
De tantos massivos abraços acalorados suando apressados até
Que a noite nos refresque desta refrega sensual, química e consensual

Outono
Amarelaram-se os dias caindo desfolhados entre o pavimento dos nossos
Desejos quase obcecados,deixando o hemisfério do amor arrefecer-se numa boreal
Luminescência mordendo os calcanhares à noite fiel a intrometer-se

Recua o tempo num silêncio quase perverso deixando em recobro tantas paixões
Que se aprontam para o festim das folhas caíndo pela planície a aprazer-se nas
Solidões dormitando agora nos braços de um desejo que não quer mais render-se

Inverno
E secou o vento frio aquela lágrima que agora hiberna nos braços
De uma oração volátil varrendo pra longe todo o invencível lamento
Cortejado por esta atarefa solidão que aqui se prostra quase imprevisível

Ficou mais só o solstício numa oclusão de desejos flertados, algemando
O equinócio que chega na geada da noite imutável, deixando-nos um arrepio
De prazer fervilhando neste inverno que se esgueira bem multi facetado

FC

Brilho do amanhecer

Esmera-se a solidão vestindo de sedas
E chitas coloridas um vítreo momento de ilusão
Onde esvazio a fronteira de cada hora fatal
Aflorando um súbito e faustoso delírio quase imortal

São os brilhos do amanhecer chegando e perpetuando
A brutal manhã amamentando a luz tão cíclica, tão vital
Saciando a ceifa de desejos colhidos num sonho tão pontual

É tempo de lavrar cada palavra plantada na eira das nossas
Saudades embalsamadas, dissimuladas por aquelas memórias que
Ficaram dormitando na bandeja de uma hora tão feliz e aclamada

E o silêncio mais relaxado, jaz por fim nos braços de um cântico
Oxigenado com palavras e rimas sempre inconformadas transbordando
No oceânico momento de vida que fecundo assim homologada

FC

Estafeta do amor

Enfrentei milhentas paragens por esse mundo
Sorvi do tempo cada lembrança capitulando
Deixei o silêncio sem rédeas…cabriolando
Até que lá do alto do trapézio da minha solidão
Se dissipe o Outono passageiro…feliz cantarolando

Pousou a luz mansamente no peitoril da noite
Despindo cada olhar recíproco embebedando o
Cliché de saudades…matriz dos meus estampados sonhos
Inalando todos os perfumes que de ti instilo tão repimpados

Embebedou-se a noitinha num estilhaço de luz elegante
Emancipou-se logrando destes beijos uma vénia de desejos
Trajando meu casto silêncio tão mutilado…tão usurpado
Deixando que a estafeta do amor entregue seu testemunho àqueles
Entes apaixonados, respirando um tenro e subtil momento de prazer
Agora e sempre mais e mais abnegado

FC