Ecos plátónicos

Falo das minhas memórias subterradas numa
Tímida e constante solidão enquanto na saudade
Ainda perduram astronómicas lembranças errando
De enredo em enredo…mas sempre tão anónimas

Pela noite trepam semblantes de uma ilusão
Carrancuda e quase disfórmica ressequindo o
Abismado coaxar do silêncio, raivoso, endémico,
Que depois sucumbe em ecos serenos e platónicos

Ergo no tempo tantas horas senis, arrítmicas
Impondo a cada maresia o cenário do amor onde
Aportam paixões sussurrando, dolentes e egocêntricas

Há-de restar na madrugada uma caricia ateada por
Brasas tão fulgurantes deixando moribundas tantas outras
Palavras fundeadas no sereno cais das rimas mais fecundas

FC

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A luz…

A luz da solidão pernoita acordada
Delira constante, metódica, diligente
Urdida num incomensurável momento urgente

A luz esbata-se pela madrugada fora e
Desemboca voraz no cais dos silêncios prepotentes
Oh, pudesse eu, inspirar-me sempre com palavras coerentes

A luz apaga-se um dia e noutro desperta ígnea desejada
E tão luzente,deixa à tangente da nossa existência um
Cardume de adocicados abraços prolíficos e coniventes

A luz esmaecida e reverberante delira entre mim e ti
Despista-se nas vielas da noite inócua e quase insolente
Adormecendo num incabível silêncio, remoçado, incauto…veemente

A luz num êxtase magistral encobre suaves gomos de alegria que
Se dissolvem num eco matinal,cauteloso e emoliente para que,
Dessedentem cada sombra vagando nesta escuridão quase decadente

A luz toma de assalto todo eco e lamento que grita copiosamente
Alonga-se em lascivos desejos desesperadamente estridentes
Embebeda-se num cálice de vendavais caricias quase transcendentes

A luz pincela todas as ilusões derradeiras mas aconchegantes
Empoleira-se entre a occipital razão de todos os amores
Até se esmagar nas falanges de tantas solidões às vezes tão asfixiantes

FC

Como pentear as palavras

Espalho a brilhantina pelos cabelos desta
Noite esbelta e bem desfrisada
Penteio a solidão túmida e prazerosa que
Passeia na lentidão de uma caricia felina e buliçosa

No cabeleireiro do tempo despenteei todas as ilusões
Estilosas até que me encarapinhei numa brisa subtil
Ornando nossas miscigenações ardentes coloridas e gentis

Na solidão das horas vagas e fortuitas penteio cada carícia
Ou guedelha mais virtuosa, mise en scéne para um cheiroso
Perfume escadeando as madeixas como adorno mais estiloso

Nas avenidas dos folículos capilares deixo pungitivos afectos
Crespos, ondulados, oleosos, mistos ou frisados alimentar
A franja de um esbelto look garboso e bem encaracolado

Por fim entre as tranças loiras de uma manhã bem
Hidratada deixo cacheados ecos embebedar o amaciante
Silêncio texturizado num penteado assim tão glamoroso

FC

Rimas enviuvadas

Pernoitam em mim sombras da madrugada
Quais vultos serenos vacilando por entre versos
Excitados, delicados, possuídos por uma
Legião de lamentos quase deliciados

Louvando o dia renasce a luz reveladora de
Tantas prestigiadas horas modelando a esfinge
Deste tempo que em mim penetra tão incestuoso
Trovando delituoso entre ecos muito sumptuosos

Enquanto prospera em nós o silêncio louco e flutuoso
Deixo este terceto tão órfão de uma rima enviuvada, depois
De comprometidos nos contentarmos com beijos tão vigorosos

Geme na alcova da noite o prazer trajado com suspiros
Quase revoltosos…ah, quantos vertiginosos desacatos
Causei assim que por mim fluías, imprudente e deleitosa

FC

Beijos emboscados

Há um sublime prazer despertado na fisionomia de
Tantos embriagados beijos cortejando este silêncio
Destrambelhado mordendo viçosos ecos e caricias possuídas
Pela enorme ternura que acalento a cada hora proibitiva

Em seus clamores adocicados e sensuais a noite afaga a
Teia de gargalhadas gentis quase libidinais ousando até a
Luz cobiçar depois de emboscar aquele beijo atónito e fraternal
Morada de muitos desejos embriagados…quase marginais

Existe por ali uma doce luz fechando os
Olhos a cada penumbra emudecida entre
Sombras alcatroadas numa palavra esquecida

Percorri solitários caminhos onde outrora ladrilhei
A imagem desta solidão quase emputecida mastigando
Toda a escuridão que perdura submissa e bem tecida

FC

Beijos da meia noite

Respiro da noite coincidentes gomos de luz
Que adormecem exilados na memória deste tempo
Tão dissidente deixando no artesanato da poesia
Sílabas e rumores do coração, batendo, batendo estupefacto

Traguei de uma só vez todos os lamentos embebedando
A antropofagia desta solidão quase impudente deixando
Alucinações boiando num mar de desejos diria, quase evidentes
Oh…irada hora inutilmente repetitiva…nitidamente aflitiva

As insónias por vezes recorrentes deslocam-se entre
Metáforas perplexas esboçando na madrugada a magia
Que filtro a cada luar, alado majestático, quase glorioso

Impus à razão toda a minha fé firme e cortês deixando
Que as leis do amor governassem o estado de emoções tão
Verazes regendo a orquestra de beijos e afagos cada vez mais audazes

FC

Modorra solidão

Nas curvas do tempo desenho a geometria
De uma gargalhada gentil e bem arrimada
Tempero até uma lágrima que se refugia
Ali juntinho a esta rima tão conformada

A noite esbracejando escurecida dilacera cada
Gomo de luz que ainda escarnece no breu desta
Solidão sempre subestimada, corroendo-me a alma
Por dentro até ficar violentamente desarmada

Sinto na ponta dos dedos a madrugada envolver-me
Entre os ecos de tamanhos silêncios inflamados
Esgotando pra sempre os desejos divagando depravados

Degusto pela manhã um perfumado odor a rosmaninho
Deixando que breves brisas indeléveis assoalhem nossos sonhos
Discretos esbarrando na modorrenta solidão quase irrevogável

FC